Entrevista: Os anjos da guarda das revistas antigas de games do Brasil

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As revistas de games foram parte importante da cultura gamer no Brasil, e algumas pessoas mantém esse espírito vivo até hoje.

Durante a já distante década de 90, a cultura dos videogames dava bons passos rumo à sua popularização no Brasil. Não demorou muito até as grandes editoras descobrirem que o brasileiro gostava – muito – de jogar videogame e estava ávido por consumir mais conteúdo relacionado. Foram quando surgiram as primeiras revistas especializadas a serem publicadas por aqui.

Hoje, em uma época em que a internet praticamente matou essas publicações, muitas pessoas ainda mantém o sentimento nostálgico de folhear aquelas páginas, relembrando como era desbravar um mundo verdadeiramente "mágico" que se abria. Nesta entrevista, conversamos com pessoas que mantêm sites especializados em digitalizar, guardar e disponibilizar este acervo, impedindo que eles caiam no esquecimento.


Conversamos com Guardião do RetroScans.org, o Leonardo Roman da Rosa, do Datassette.org e o evil_arthas do RetroAvengers.com.br. Somados, eles mantém milhares de arquivos, centenas de títulos digitalizados e disponibilizados gratuitamente na internet.

Para estas pessoas, não se trata apenas de nostalgia, mas de reviver sentimentos e de redescobrir verdadeiro sentido em se jogar videogame. Confira:

De onde surgiu a ideia de reunir e disponibilizar o acervo das revistas antigas de games publicadas no Brasil?

Leonardo Roman da Rosa (Datassette): As revistas de videogame fizeram parte da minha adolescência. Criei o site com o intuito principal de reunir o material nacional sobre informática e videogames das décadas passadas. Já havia muita coisa espalhada pela web. Muita gente estava digitalizando essas revistas, mas estava tudo disperso em diversos sites, fóruns, e no antigo Orkut. E muitos links de download eram de serviços de armazenamento gratuito. Então downloads que não funcionavam eram uma constante. Isso me incentivou a reunir o máximo de material digitalizado em um único lugar.  O que me incentiva até hoje é que o site acabou se tornando uma referência de pesquisa e conta com diversos colaboradores que trazem muito material inédito.

Guardião (RetroScans): Desde de criança sempre tive uma paixão muito grande pelas revistas de games, que era sempre minha carta na manga para conseguir zerar alguns jogos que nos levavam à loucura de tão difíceis. Como a maioria das crianças dos anos 90, eu não tinha grana para comprar nem a metade das revistas que eu tanto queria. E sempre pensava que, de alguma forma mesmo sem saber como, algum dia seria possível ter todas em minha coleção.

Foi inspirado nesse desejo que surgiu o projeto retroscans.org, um site que criei com um hobby para compartilhar com todos os fãs do retro game não somente scans de revistas antigas, mas nostalgia, alegria, lembranças muitas vezes esquecidas devido a nossas vidas corridas e cheias de obrigações e deveres, de uma das melhores épocas.



evil_arthas (RetroAvengers): Sempre tive vontade de contribuir com a comunidade gamer. De devolver, em forma de algum serviço, tudo o que já foi feito por essa comunidade e que eu desfruto. Coisas como emuladores, vídeo reviews, FAQS, "dumpagem" de roms, traduções, etc. A ter acesso à coleção da Official Sega Saturn Magazine, disponibilizada no site www.retromags.com, percebi como as digitalizações feitas no Brasil tinham baixa qualidade.

Respeito muito o trabalho das pessoas que gastaram seu tempo e digitalizaram suas revistas, mas tem muita revista digitalizada a 72dpi (o mínimo aceitável é 300), sem endireitamento de página ou recorte adequado, dentre outros problemas. Daí, em 2011, entrei em contato com o crimsonphoenix no fórum neofighters e começamos a digitalizar as nossas revistas.

Para compartilhar com todos [...] não somente scans de revistas antigas, mas nostalgia [...] lembranças muitas vezes esquecidas devido a nossas vidas corridas e cheias de obrigações 

As publicações antigas, mesmo às vezes contando com informações erradas ou traduções mal feitas tinham certa personalidade, tanto no modo como os textos eram escritos quanto no modo como eram apresentadas. Você acha que os meios de informação que as substituíram (vídeos de gameplay, blogs pessoais ou grandes sites como IGN, UOL, Kotaku, Polygon) conseguiram trazer o mesmo sentimento para a nova geração?

Leonardo (Datassete): Acredito que foi uma época de descobertas para os jornalistas brasileiros da área. O que você chama de personalidade eu caracterizo como um certo amadorismo de quem estava desbravando o terreno por aqui.

Hoje em dia os grandes sites e mesmo blogs pessoais conseguem ter informações muito mais precisas e de forma mais rápida do que as disponíveis nos anos 90, quando não havia internet. Sem dúvida existe um saudosismo em folhear aquelas páginas de papel e relembrar nossa juventude, mas a qualidade e quantidade das informações que temos hoje não deixa saudade daqueles tempos. E para quem não viveu a época, aquilo acaba parecendo a idade da pedra do jornalismo de games.

[...] existe um saudosismo em folhear aquelas páginas de papel e relembrar nossa juventude, mas a qualidade e quantidade das informações que temos hoje não deixa saudade daqueles tempos

Guardião: Acredito que não. Hoje em dia vivemos a geração da informação a um clique. Quando nos deparávamos com um game lançado recentemente no mercado, ficávamos loucos para nos encontrar com os amigos na locadora para trocarmos informações e acabávamos vivendo momentos únicos de compartilhamento de conhecimento e amizade.

Hoje em dia com sites como o Youtube, podemos saber qualquer coisa sobre qualquer game que queiramos, mesmo os que muitas vezes ainda nem foram lançados. Com isso temos toda informação que buscamos na palma da mão, mas muitas vezes esquecemos que o mais importante é se divertir e fazer amigos.

evil_arthas: Acho que são duas coisas muito diferentes, os sites e as revistas. Falam sobre a mesma coisa, mas são veículos distintos. Eu acho que o interessante é complementar as 2 coisas. As revistas e a informação online. Mas, com certeza, os novos veículos não tem o mesmo charme das revistas antigas.

Hoje em dia podemos saber qualquer coisa sobre qualquer game [...] mas muitas vezes esquecemos que o mais importante é se divertir e fazer amigos.

Muitos jogos novos, especialmente aqueles feitos por desenvolvedores independentes, mantiveram o espírito de retrogaming e continuam fazendo jogos no estilo pixel art, em 2D e replicando 8 ou 16bits – destaque para os brasileiros Oddalus, Knights of Pen and Paper, Out There Somewhere, e internacionais Axiom Verge, Spelunky, etc) Você conhece ou gosta de algum? O que acha dessa iniciativa?

Leonardo (Datassete): Desses que você citou não joguei nenhum, mas já tinha ouvido falar do Spelunky. Acho bem legal esse estilo de jogo em pixel art. É uma forma dos desenvolvedores fazerem uma homenagem ao passado sem ficarem presos às limitações das plataformas antigas.

Também é interessante que alguns desses jogos em pixel art acabam fazendo o caminho inverso e sendo portados para plataformas antigas, seja oficialmente ou por fãs. De cabeça lembro que fizeram isso com o Flappy Bird, com o jogo Canabalt e o Retro City Rampage (que foi portado para DOS e Windows 3.1 !!).

Guardião: Acredito e apoio firmemente toda e qualquer iniciativa que tenha como objetivo não deixar o retrogame ser esquecido dando o valor que ele merece. Um game que me chamou bastante atenção foi o Another Metroid 2 uma remake feito para PC por um fã da serie Metroid que diga-se de passagem é uma das minhas favoritas do Super Nintendo.

evil_arthas: Sim, gosto desses jogos como Oddalus, Scott Pilgrim e Shovel Knight.



Você joga coisas mais novas também, ou prefere se manter apenas nos jogos antigos? Se prefere se manter nos antigos, por que? O que anda jogando ultimamente?

Leonardo (Datassette): Gosto de jogos bons e que me agradem. Consigo apreciar jogos de qualquer época, dos mais novos aos mais antigos. De jogos mais recentes, ultimamente tenho me divertido no PC com Fallout 4, Rise of the Tomb Raider e Prince of Persia Sands of Time (esse não é exatamente novo, mas ainda quero terminar). Também costumo ligar meu Mega Drive com o cartucho Ever Drive e jogar muita coisa da biblioteca dele. Krusty’s Super Funhouse, Castlevania Bloodlines, Battletoads e Kid Chameleon são alguns que lembro de ter jogado recentemente.

Guardião: Sim, jogo bastante os jogos da nova geração, até porque acho que devemos nos dar o direito de conhecer algo antes de darmos nosso opinião. Acredito que não devemos nos basear em experiências e opiniões de outras pessoas, e sim termos uma experiência impar e sincera.

evil_arthas:  Sou retrogamer de coração, mas também jogo games mais atuais. Tenho um PS4, mas atualmente estou re-jogando Eternal Sonata, RPG para PS3.

Junto com as revistas, as locadoras desempenharam um papel fundamental para a cultura dos games no Brasil. Você acha que é possível replicar esse senso de "comunidade" que tínhamos nas locadoras e nas revistas, na internet?

Leonardo (Datassette):  De certa forma sim. A internet aproximou muito mais os gamers do que era possível somente enviando cartas para revistas. Hoje não faltam fóruns, listas de e-mail e grupos de Facebook, WhatsApp, etc especializados nos mais variados jogos e consoles para agradar a todos. Mas uma coisa que talvez tenha se perdido junto com a época das locadoras e das casas de “Diversões Eletrônicas” (as casas de jogos de arcade e fliperama) é se reunir com os amigos para ir jogar algum jogo que só existia nos arcades ou em algum videogame mais caro que ninguém tinha em casa. Hoje se reunir para jogar com os amigos na maioria das vezes significa jogar algum jogo multiplayer online.

uma coisa que talvez tenha se perdido junto com a época das locadoras e [...] as casas de jogos de arcade e fliperama é se reunir com os amigos para ir jogar algum jogo que só existia nos arcades ou em algum videogame mais caro que ninguém tinha em casa

Guardião: Sinceramente acredito que não. Os tempos mudaram e juntamente com ele a cultura e a forma de consumirmos vídeo game. Vejo que nos dias de hoje muitos da nova geração – deixo claro que alguns e não todos – estão mais preocupados em ter e mostrar que tem do que verdadeiramente se divertir.

Arrisco dizer que somos sobreviventes de uma geração que não se importava com gráficos ultra realistas ou em ter uma mega cadeira gamer ou uma super tela para podermos mergulhar em um mundo de fantasia onde o mais importante era se divertir e sermos nós mesmos.

Arrisco dizer que somos sobreviventes de uma geração que não se importava [...] em ter uma mega cadeira gamer ou uma super tela para podermos mergulhar em um mundo de fantasia onde o mais importante era se divertir e sermos nós mesmos.

Gostaria de todo meu coração que a magia e a atmosfera das locadoras, mesmo que em uma pequena dose realmente pudesse voltar e se tornar realidade. Afinal hoje com a idade que tenho vejo que as coisas mais importantes da vida eram tão simples que não podiam ser compradas com dinheiro, como amigos de verdade e momentos únicos sentado em uma cadeira de plástico em frente a uma TV de 20 polegadas "tubão" jogando Donkey Kong 1 pela primeira vez na antiga locadora do Juca aqui onde moro.

evil_arthas:  Não. De jeito nenhum. Nunca mais será a mesma coisa. A presença dos amigos não será substituída pelo contato virtual. Tenho amigos feitos no arcade e que jogam até hoje. Sempre tentamos nos reunir 1 vez por semana. É muito mais divertido do que jogar online.

A presença dos amigos não será substituída pelo contato virtual. [...]

Qual a edição mais marcante, ou uma matéria das revistas que você coleciona da qual não consegue esquecer e sempre pega para ficar relendo?

Leonardo (Datassette): Não mantenho muitas edições físicas e nem as edições digitalizadas costumo reler. Mas na época usava muito as revistas para as dicas de jogos. Uma revista que lembro de ter sido muito folheada foi uma com um detonado do jogo Bart vs The Space Mutants. Foi a edição especial da Videogame sobre esse jogo (Videogame 11A). E até hoje não terminei o jogo.

Guardião: Uma das edições mais marcantes para mim foi a Super GamePower Nº 03 que trazia a heroína Samus Aran na capa. Passava horas lendo e relendo todas aquelas páginas desse game que na minha opinião foi o melhor game da série Metroid já feito.

evil_arthas: Na década de 90 eu colecionava a SGP e a Gamers. Mas duas edições que me marcaram foram uma revista “prima” da Gamers, a World Games. São os detonados de Lunar: The Silver Star Story e de Grandia, ambos para PSX. Se não me engano são a World Games nº 06 (Grandia – parte 1) e as World Games Special nº 05 (Lunar) e 06 (Grandia – parte 2).



Dessas publicações, qual te agradava mais na época em que estavam nas bancas? (Ação games, Super gamepower, etc)

Leonardo (Datassette): Várias. Comprei todas as principais à época. A Supergame tinha um ótimo conteúdo voltado para os videogames da Sega. A Gamepower era no mesmo nível com os videogames da Nintendo. A Videogame e Ação Games também tinham excelentes conteúdos multiplataforma. E a Supergamepower juntou duas grandes revistas para rivalizar com a concorrência.

Guardião: Não sei muito bem explicar o motivo, mais a que eu mais gostava era a revista Video Game.

evil_arthas: SGP e Gamers. A SGP tinha um jeito mais descolado e era mais bonita graficamente. A Gamers era mais detalhada, chegava a ser prolixa, mas pata quem gosta de RPG era indispensável.

Como vocês se mantém e como as pessoas podem ajudar?

Leonardo (Datassette): Mantenho o site no ar com recursos próprios. Ainda não divulguei formas das pessoas ajudarem mas estou pensando em usar o Patreon para quem quiser colaborar financeiramente.

Guardião: O site retroscans.org é mantido pela doação voluntaria de fãs que apreciam e acreditam nesse projeto que mantenho de fã para fã. Todos podem ajudar não importando a idade ou classe social, uma das principais formas de nos ajudar a manter esse projeto vivo é doando qualquer valor, qualquer valor mesmo para pagarmos as despesas com hospedagem do site e renovação do domínio. Clicando no botão "ajude-nos" em nosso site você pode estar efetuando sua doação usando PayPal ou PagSeguro. Se você tem na sua casa aquela caixa empoeirada de revistas antigas de games e não sabe o que fazer com ela? Entre em contato conosco para que possamos ver a melhor forma de você nos enviar as mesmas para que possamos passá-la para o meio digital e quem sabe um dia possamos ter todas as nossa queridas revistas digitalizadas e disponibilizadas de forma gratuita em um único lugar.

evil_arthas: O nosso site é feito em wordpress (gratuito), a nossa hospedagem foi uma doação. O domínio, eu tenho pago, mas é algo barato. Para ajudar, as pessoas podem doar as suas revistas ou pagar frete de revistas alheias (isso sim é caro) ou adquirir revistas que não temos no mercado livre ou no facebook. Também estamos abertos ao ingresso de novos membros no grupo. Tem muito trabalho a ser feito ainda.