Análise: Final Fantasy XV - da esperança à decepção

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Crianças, nesta aula aprenderemos que expectativas muito altas podem estragar experiências.

(pode conter spoilers leves)

Final Fantasy é um daqueles jogos "clássicos" que tinham tudo para nunca terem saído da obscuridade. Sistemas de batalha complexos e por turnos, versões ocidentais com traduções esquisitas, introduções longas demais, excesso de texto, dentre muitas outras idiossincrasias da Square em seus RPGs contribuiriam para, em tese, afastar novos jogadores. Entretanto, a cada novo episódio da série mais e mais pessoas se apaixonavam por suas histórias e mecânicas inovadoras.

Entre altos e baixos, a franquia prosseguiu, ora flertando com o online, como nos episódios XI e XIV, ora com sistemas de batalha mais abertos, como no XII (que recentemente ganhou um remake) e no XV. Ah, e falar da décima quinta versão deste jogo é falar também sobre seu muito conturbado período de desenvolvimento, com trocas de equipes, mudança de foco, demissões e claro, a diferença total entre ser um spin off e um jogo numerado da série.

Quase a metade desses personagens não vai ser aproveitado e/ou vai morrer antes que você os encontre

Inicialmente pensado como FF Versus XIII e anunciado para o longínquo ano de 2006, o episódio XV se tornou um problema para a Square quando o XIII não foi bem recebido pela crítica. Trocas no comando aconteceram e muitos problemas depois o Final Fantasy XV foi lançado com incríveis 10 anos de atraso. E aqui começam meus problemas com ele.

Ao contrário do que possa parecer, 10 anos de desenvolvimento não fizeram FF XV ser um jogo com 10 anos de maturação. Nem 5. Nem 1. A impressão é que o jogo foi lançado ainda incompleto, mal pensado, de modo que mecânicas com ótimo potencial são pobremente utilizadas ou mesmo subaproveitadas. Talvez isto seja cruel demais com o jogo ou uma avaliação desnecessariamente severa, mas não se trata de um novo título de uma desenvolvedora novata no cenário. Trata-se da 15a versão de um título consagrado em todo o mundo, e pra alguns a Square parece ter perdido o mojo, não identificando o que faz um bom Final Fantasy e o que não faz.

Acompanhar Noctis com seus amigos em uma espécie de "road movie", ou "filmes de estrada" foi uma excelente sacada. Aliás, personagens viajando com os amigos, conhecendo novos lugares e novas pessoas sempre gerou muitas boas histórias, tanto no cinema – Little Miss Sunshine (2006), Thelma and Louise (1991), Badlands (1973), Easy Rider (1969), apenas para citar alguns – nos quadrinhos (Preacher), e nos livros (Deuses Americanos). Ou seja, a receita não era nova, e ingredientes estavam todos lá para criar um grande jogo com uma grande história.

E é preciso deixar algo bem claro aqui: Final Fantasy XV é um grande jogo. Me diverti durante muitas horas com ele e seus personagens são muito mais cativantes do que o que se costuma ver na série. Entretanto, é preciso reconhecer que existem problemas GRAVES, principalmente no que diz respeito às mecânicas de luta e à sua problemática câmera.

Das mecânicas


Em determinados momentos, o décimo quinto episódio da franquia simplesmente esquece qualquer noção de RPG ou estratégia. Basta segurar o botão de ação e o personagem ataca qualquer inimigo na sua frente. Segurar um botão também faz com que ele desvie automaticamente. Ora, se os personagens atacam e se esquivam automaticamente, eu estou jogando? As magias ofensivas também afetam seus aliados, fato que, caso você deixe essa função com os outros três personagens que você não controla (no jogo temos controle apenas sobre Noctis, o protagonista) é certeza de que quando menos espera você vai receber uma magia na cara, um fogo amigo, que atrapalhará seu progresso na batalha. Isso se você tiver paciência para fabricar magias, manualmente, nos menus. Não há um sistema de  jobs competente e basicamente todos os personagens fazem de tudo, sem especialização. Ou talvez a câmera fique completamente maluca com os deslocamentos de Noctis pelo ar durante as lutas, que te farão perder a noção completamente de onde está e do que está acontecendo na tela.

As batalhas em FFXV podem se tornar extremamente confusas graças à sua câmera ruim e cenas como estas são comuns
Esses elementos negativos se tornam ainda mais evidentes quando lutamos contra certos inimigos, especialmente lutas especiais contra "chefes". A batalha contra Leviathan, por exemplo, parece mais uma luta de Dragon Ball Z do que qualquer outra coisa. Segure o botão de ação e veja seu personagem desferir combos malucos e se deslocar no ar livremente como um deus. Siga dois ou três comandos sequenciais na tela, ao estilo God of War e pronto. Luta encerrada, você foi vitorioso – e não podia ser diferente, afinal, a luta parece ter sido desenhada para que uma criança de 10 anos de idade (e talvez um pouco burra) também vencesse sem maiores esforços.

Da história

A história, segundo o diretor, foi pensada para que ela fosse contada do ponto de vista de Noctis, ou seja, ele e seu grupo não teriam contato com todos os elementos do enredo, o que faz muito sentido se a proposta é mostrar como o protagonista e seus amigos passaram por aquelas experiências. Entretanto, o que se tem realmente são pedaços inteiros de história "faltando", inimigos que prometiam grandes embates que simplesmente somem sob alegação de que morreram (?!) em um arco narrativo muito estranho. Obviamente, estas justificativas não parecem realmente fruto do afastamento do protagonista da linha principal da história, mas de um sentimento de incompletude, provavelmente ocasionada pelos inúmeros atrasos no desenvolvimento, que levaram ao simples e direto corte de pedaços da narrativa. O último arco com o salto de tempo, apesar de bem pensado, foi tão mal escrito que causa estranheza. Um amigo que passa 10 anos desaparecido surge do nada e você o recebe como se o tivesse visto uma semana antes?

Resumindo a ópera, após trancos e barrancos a Square lançou um Final Fantasy que está longe de ser um dos piores da franquia, mas que notadamente não faz jus a absurdos 10 anos de atraso. No fim das contas a lição que fica, para mim e muitos fãs, é de que a expectativa não alcançou o que o jogo objetivamente entregou. Talvez se a quantidade absurda de dinheiro que foi gasta com o merchandising (com a produção de um anime e um filme exclusivamente para isso) fosse utilizada para um maior período de polimento, quem sabe teríamos um Final Fantasy para entrar na história. O episódio XV, apesar de cumprir razoavelmente bem o seu papel, não entra para o hall da fama da franquia.