The Last Guardian - A emocionante história de um tamagochi pós-moderno

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The Last Guardian quase não viu a luz do dia e ficou tempo demais em desenvolvimento.

Imagem por De-monVarela (DeviantArt)
Eram os anos 90 quando os tamagochis invadiram o Brasil como uma febre. O brinquedo, cuja dinânima se baseava em prover as necessidades básicas a um "bichinho virtual", apelava a uma característica que acompanha os homens desde a pré-história, que é a domesticação de animais. Disto, passamos aos animais de estimação, que como o nome já diz, gera em nós um elo sentimental muito forte.

A despeito dos famigerados bichinhos virtuais serem uma emulação simplória de um pet real, The Last Guardian tomou para si uma tarefa infinitamente mais complexa: emular um bicho de estimação não apenas na sua aparência, mas também no seu comportamento, em todos os aspectos. Talvez este tenha sido, no fim das contas, o grande problema que gerou seu enorme atraso e um cogitado cancelamento no projeto.

Inicialmente pensado para o PlayStation 3, The Last Guardian gerou grande expectativa por ser uma obra de Fumito Ueda, desenvolvedor por trás de jogos muito respeitados, como Ico e Shadow of the Colossus.

Em 2017 tivemos o fatídico lançamento do jogo, algo que já parecia improvável para muita gente. E aqui me vejo em uma espécie de dilema ao analisá-lo. Se o vermos como um jogo tipicamente de PS3 - como ele parece ser - corremos um risco de fazer uma equivocada leitura anacrônica o jogo, afinal, ele é efetivamente um jogo de PS4, e os critérios para analisá-lo deve ser o mesmo dos seus contemporâneos.

A aventura narrada pelo garoto e pelo seu companheiro Trico deveria servir para formar um elo poderoso entre nossos corações e o animal fictício, e para que isso parecesse crível, o comportamento de Trico deveria ser equivalente a um gato doméstico ou um cachorro. Enquanto protagonistas, alimentamos, cuidamos e damos comandos para que Trico avance conosco através dos labirintos e possamos sair daquele local estranho.

Sobre o level design, é preciso dizer que é algo impressionante conseguir transportar o garoto e seu gigantesco animal através dos labirintos de uma maneira fluida e não forçada. Apesar disso, tive a nítida impressão de que o jogo durou mais do que deveria ou que ele deixou de arriscar em certo ponto do progresso. Enigmas se tornaram repetitivos, cenários idem e eu já me sentia ansioso - no sentido negativo da palavra - para terminá-lo pouco depois da sua metade.

Imagem por NikuSenpai (DeviantArt)

Se por um lado o design acertou, não se pode dizer o mesmo da câmera e da jogabilidade. Se por um lado estes aspectos funcionaram bem em Shadow of the Colossus, o mesmo não pode ser dito de Last Guardian. No primeiro tínhamos grandes campos de batalha a céu aberto, e toda a ação se passava em locais cujo teto era o próprio céu. O protagonista de SoTC tropeçava ao correr, escorregava ao subir nos colossos e nos dava uma sensação de realidade, ou dramaticidade às suas ações. O problema é que Ueda repetiu exatamente o mesmo conceito em Last Guardian, onde na maioria das vezes conduzimos Trico por locais apertados ou curtos.

O resultado disso é uma câmera nervosa, difícil de ser controlada e que em muitas vezes vai deixar o jogador completamente perdido. Quando você tenta subir ou descer de Trico o garoto vai se segurar nas suas penas sem que você queira, escalar para a barriga do animal quando você quer ir para a sua cabeça, e toda a sorte de coisas que te deixarão irritado. Só há um tipo de inimigo em todo o jogo e, apesar do foco dele não serem as batalhas, ter um mínimo de variedade seria um oásis na repetição sem fim que torna o jogo "chato" neste aspecto. Sua interação com o animal limita-se a encontrar certos barris no cenário para alimentá-lo e dar alguns poucos comandos de progressão (saltar, vir, etc), o que é frustrante, porque havia muito potencial para interações inovadoras, novos truques para o Trico de modo a variar o combate, e por aí vai.

O visual do jogo incomodou muitas pessoas quando ele foi efetivamente mostrado. Ele parecia pertencer à geração passada e trouxe um incômodo (para alguns) aspecto "lavado" nas suas cores. A escolha de arte do jogo optou por um caminho não muito realista e por vezes mais cartunesco, ou talvez imitando pinceladas mais ou menos como The Legend of Zelda: Skyward Sword tentou fazer, mas usando uma paleta de cores bem menos colorida. Isso proporcionou cenas muito bonitas e marcantes, principalmente na parte final do jogo, entretanto, é compreensível que muitas pessoas tenham ficado chateadas com este aspecto, por esperarem um nível de excelência que ultrapassasse o que foi mostrado nos jogos anteriores, o que definitivamente não aconteceu. Ele realmente está mais próximo de um jogo de PS3 do que de PS4.

No fim das contas, considerando todo o atraso e sofrimento para este jogo ver a luz do dia, podemos dizer que o saldo final foi... neutro. Quando analisado isoladamente, The Last Guardian é um jogo razoável, que inova em alguns pontos, mas que apresenta problemas sérios dificilmente vistos em jogos desta geração. Por outro lado, quando visto como o "sucessor espiritual" (e aqui eu uso uma expressão que odeio, porque muito empregada fora de contexto) das outras obras do Fumito Ueda, The Last Guardian mostra-se como um heideiro digno para o legado do designer. Caso tivesse sido lançado anos atrás, ainda na geração passada, ele talvez parecesse genial. Como muitas águas passaram desde que o vimos pela primeira vez, suas mecânicas não são mais revolucionárias ou sequer novas. Seus gráficos são datados e sua câmera um pesadelo. Apesar disso tudo, o jogo entrega uma história emocionante e competente que, apesar de não ser a peça de genialidade que estávamos esperando há anos, com certeza é um bom jogo no que se propõe a fazer, que é criar um laço de carinho entre você e um bichinho virtual de 8 metros de altura.