Nintendo em 2017: como a empresa se reinventou para evitar a ruína e voltar ao topo

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2017 foi o ano da Nintendo. E possivelmente 2018 também será.

Depois de passados meses desde o seu lançamento, bem como passado também toda a empolgação inicial, podemos falar com mais calma sobre a Nintendo e o seu mais recente lançamento, o Nintendo Switch.


Quando o Wii U se mostrou um console fraco e sem apelo para o mercado, muitos analistas apontaram uma saída para a Nintendo: tornar-se uma Sega. Ou seja, deixar de fabricar hardware e concentrar-se apenas no software. Produzir seus jogos para outras plataformas, incluindo aí um apelo pelo mobile. Durante uma conferência de tecnologia em 2014, o analista de mercado especializado em videogames Michael Pachter disse o seguinte:

"Eles (Nintendo) estão mais de uma década atrás da curva, e eles estão tão ilhados que não há desejo interno de aprender com os outros. (...) O hardware da Nintendo vai embora. Existe um lugar para o seu conteúdo. Não há lugar para o hardware da Nintendo. Ninguém se importa. Eles terão que abandonar o hardware"

Jesse Divnich, então Vice Presidente da EEDAR (Electronic Entertainment Design and Research) também opinou sobre o assunto:

"Se o Wii U se tornasse um fracasso no mercado, eu suspeitava que uma abordagem de apenas software se tornasse uma consideração séria; No entanto, provavelmente reduziria a avaliação da empresa pela metade. A transição sozinha mataria espiritualmente a empresa por muitos anos".

Posteriormente, a Nintendo sinalizou um avanço nesta área, com o primeiro jogo de Mario fora das plataformas da empresa, lançado para smartphones. Ele não é exatamente um jogo tradicional do Mario, mas uma releitura do gênero runner ou "infinity runner", já visto em uma infinidade de outros jogos. Isso mostrou que a Nintendo enxerga o mobile como uma coisa totalmente diferente dos consoles, e, acertadamente, não tentou simplesmente transplantar um jogo do Mario para esta mídia, como fez a Sega ao portar seus muitos Sonic para o touchscreen apenas emulando dos controles com botões virtuais, tornando o jogo uma experiência no máximo medíocre.

Créditos da imagem: vooks.net

Em 2017, a despeito das opiniões duras, a Nintendo entregou um produto diferente de todo o resto que a indústria oferecia – e que realmente tinha um apelo especial. Isso é importante de dizer porque a aposta anterior, o Wii U, também tinha um apelo único, mas que acabou não funcionando, ao contrário do que muitos pensam, não porque trata-se de um aparelho mais fraco do que os seus concorrentes, mas por ser algo que fica no meio do caminho do que deveria fazer.

Há ainda que se lembrar de quando o Wii U foi apresentado em um evento tão desastroso que o console em si não foi sequer mostrado, sendo que no final da apresentação os jornalistas se perguntavam se o novo videogame era apenas o controle com tela – única parte mostrada – ou se era algo diferente. No fim das contas a premissa era boa, mas muito mal explicada e apresentada. Apesar de ser um console interessante, o hardware não foi apoiado pelos grandes desenvolvedoras, e a falta de grandes jogos impactou negativamente o desempenho do aparelho, principalmente nas vendas fora do Japão.

Aprendidas as duras lições, a Big N fez o Switch entregar o que o Wii U não pôde: a experiência completa entre um console tradicional de mesa e um portátil. O aparelho não é super poderoso – nem pode ser, sob pena de ou se tornar muito caro ou com uma margem muito pequena – mas é bem construído, encaixa bem nas mãos e tem uma bateria razoável.

Somou-se a isso um catálogo de lançamento com um Zelda histórico e a receita do sucesso estava completa. Além disso, desde o seu anúncio a Nintendo fez questão de aproximar os desenvolvedores, inclusive os independentes, além de anunciar uma mudança na sua plataforma online, modernizando-a e oferecendo um modelo de assinatura. O ano ainda trouxe outras pratas da casa, como Super Mario Odyssey, Arms, Splatoon, além de outras desenvolvedoras ainda tímidas, nitidamente "testando o terreno", como a Bethesda e a EA, com Skyrim e FIFA 18.


Não é raro ver entre as notícias uma que aponta alguma quebra de recorde de vendas, e é possível que outros continuem sendo quebrados. O Nintendo Switch é um grande acerto que prova mais uma vez que a Nintendo não é apenas uma tradicional empresa do setor, mas um player poderoso, capaz de conquistar seus clientes não apenas baseando-se em especificações técnicas – como já foi mostrado com o Wii – mas também sendo capaz de se adaptar aos novos tempos e aprendendo com seus erros.

Isso parece ser trivial para uma startup ou alguma empresa ocidental de caráter mais aberto, entretanto, mostrou-se excepcionalmente difícil dentro da Big N, uma companhia que possui a rigidez e disciplina da cultura japonesa, e talvez até mesmo uma certa "teimosia".

Estas características fizeram com que ela entregasse ao seu público tanto consoles memoráveis quanto permanecesse insistindo em decisões questionáveis. Apesar disso, o fã da Nintendo sempre soube que para uma companhia que possui os jogos no seu DNA, os videogames nunca serão "apenas negócios".

Referências (em inglês): GamesIndustry; Forbes; VentureBeat